Métodos de Monte-Carlo
Neste capitulo abordaremos as diversas características fundamentais dos chamados Métodos de Monte-Carlo (MC). Este tipo de métodos é usualmente utilizado por investigadores em diversas áreas, mas sempre com o objectivo de tentar chegar a resultados que de outra forma seriam impossíveis, ou pelo menos extremamente difíceis de obter. A abordagem que iremos seguir focar-se-á principalmente na utilização desta metodologia para a realização de simulações computacionais de sistemas físicos, que actualmente não têm solução analítica conhecida, nomeadamente sistemas com uma evolução estocástica.
Os métodos MC têm inerentes à sua própria natureza uma convergência bastante lenta, da ordem de
, pelo que ao utilizá-los temos que tomar isso em consideração e tomar precauções para tornar a convergência o mais rápida possível e evitar que o nosso algoritmo se torne lento demais para as nossa necessidades. Esta difícil convergência, impõem também que só se recorra a este tipo de métodos quando não é de todo possível obter os mesmos resultados por outra forma3.1.
A equação mestra
Modelos estocásticos em que as transições de uma dada configuração para outra configuração ocorrem espontaneamente a uma taxa 3.2
, têm uma distribuição de probabilidade que evolui deterministicamente no tempo de acordo com uma equação mestra (
Sec. 3.1). A eq. mestra é uma equação de derivadas parciais que descreve o fluxo de probabilidade para originar e para destruir uma determinada configuração do sistema.
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(3.1) |
Os termos de criação e destruição inter-relacionam-se, por forma a que a condição de normalização
seja sempre verificada. Uma vez que a variação temporal de esta completamente determinada pela distribuição actual de probabilidades num dado instante t, a equação mestra descreve um processo de Markov, o que significa que o processo em si não tem memória intrínseca. É também importante notar que os coeficientes
são taxas e não probabilidades, pelo que podem tomar valores superiores a 1 e podem ser reescalonados alterando a escala de tempo.
No equilíbrio,
e o sistema obedece à chamada condição de balanço detalhado3.3:
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(3.2) |
Tipos de amostragem
Nesta secção tentaremos ilustrar as diferenças e diferentes aplicações das chamadas amostragens simples e de importância
3.4
.
Amostragem simples
As técnicas de Monte-Carlo usam-se (como já foi referido) para efectuar simulações de sistemas macroscópicos com um numero muito grande 3.5 de graus de liberdade, com o objectivo de obter valores para determinadas grandezas macroscópicas, valores esses que são geralmente valores médios, para todas as configurações acessíveis para uma dada energia. Em Física Estatística define-se a média de um observável como sendo:
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(3.3) |
em que:
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(3.4) |
é a chamada função de partição do sistema, representa o Hamiltoniano e S denota a integração sobre todo o espaço de fase. No entanto, na prática, nunca é possível calcular exactamente o integral da
Eq. 3.3, pelo que somos obrigados a usar apenas um numero finito de pontos do espaço de fase
.
Se escolhermos os pontos utilizados segundo uma rede regular, obtemos uma distribuição irregular no espaço de fase. Se no entanto, escolhermos os nossos pontos aleatoriamente segundo uma distribuição uniforme, obtemos a chamada amostragem simples, segundo a qual
Eq. 3.3 se passa a escrever, no limite
como:
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(3.5) |
Esta forma de escolher os pontos do espaço de fase, também melhora os resultados obtidos, mas á custa de uma grande tempo de convergência. Em principio, se em vez dos pontos estarem uniformemente distribuídos nos espaço de fase, eles obedecem a uma determinada distribuição , por forma a privilegiar determinados pontos, os resultados convergiriam mais rapidamente. Neste caso, a nossa aproximação
Eq. 3.5 tomaria a forma:
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(3.6) |
Amostragem de importância
A escolha mais obvia para na
Eq. 3.6 é
, por forma simplificar a expressão ao máximo, obtendo-se neste caso, uma média aritmética usual:
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(3.7) |
Esta forma de amostragem do espaço de fase, é conhecida por amostragem de importância, uma vez que atribui um determinado grau de importância a cada estado possível do sistema, por forma a que os estados mais prováveis contem mais vezes e os menos prováveis contem menos.
O problema agora é construir um processo para implementar a amostragem de importância. Metropolis et al.[25] sugeriu o uso de uma cadeia de Markov3.6, com probabilidade de transição
, o que no limite
implica que converja para:
Para tal é suficiente, embora em geral não seja necessário, impor a condição de balanço detalhado 3.7 .
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(3.8) |
Daqui é trivial mostrar que:
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(3.9) |
onde representa a variação de energia entre os dois estados considerados.
É obvio que a
Eq. 3.9 não define unicamente
e como tal existem várias propostas para esta taxa de transição, sendo as mais conhecidas:
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(3.10) |
![$\displaystyle W_{s\to s'}=\frac{1}{2\tau_s}[1-\tanh(\beta\delta H)]$](images/img200.gif) |
(3.11) |
Em todas as simulações realizadas, pretendeu-se simular um sistema em condições o mais realistas possíveis, por forma a permitir que os resultados obtidos possam ser comparados com os obtidos experimentalmente. Como é sabido, as amostras materiais utilizadas na realização de experiências, por muito pequenas que seja, contêm sempre um numero de partículas
.
Figure 3.1:
Realização das condições fronteira periódicas num sistema a 1D. a) Sistema de tamanho sem condições fronteira periódicas. b) O mesmo sistema com condições fronteira periódicas, da forma como é ``visto'' por uma partícula que nele se encontre.
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Figure 3.2:
Realização das condições fronteira periódicas num sistema a 2D. a) Sistema de
da forma como é visto por uma partícula na ausência de periodicidade. b) O sistema, visto na mesma perspectiva, quando é introduzida a periodicidade.
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Este facto levanta um sério problema na realização de simulações, pois estamos limitados pela memória disponível numa maquina, e pela velocidade da mesma. Apesar de o tamanho da memória poder ser considerado praticamente ilimitado para todos os efeitos práticos, o mesmo já não pode ser dito acerca da velocidade, e trabalhar com muitas partículas, implica gastar muito tempo numa única simulação. O que tende a limitar o numero de repetições que é possível realizar em tempo útil, e portanto, a precisão dos resultados obtidos. Pretende-se portanto, simular um sistema de tamanho finito, da forma mais eficiente e realista possível. A forma mais utilizada de tentar atingir este fim, é recorrendo a condições fronteira periódicas. Este método consiste em ``unir'' os extremos opostos do sistema, por forma a que durante a simulação se minimize o efeito do tamanho finito do sistema. Esta periodicidade do sistema resolve também um outro problema que ocorre no caso de se considerar difusão, que é o facto de sem ela, o sistema apresentar um inicio e um fim, o que tende a limitar o movimento das partículas e a perturbar a sua disposição espacial dentro do próprio sistema3.8. Estas condições têm que ser impostas, não só quando se considera qualquer forma de difusão das partículas, mas também quando se introduz o efeito de um potencial sobre o sistema3.9, caso contrário, o potencial efectivo sentido pelas partículas teria um ``cut-off'' a meio do sistema, o que levaria a uma irregularidade da função de correlação para distâncias de .
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